No Dia Mundial da Fotografia, celebrado em 19 de agosto, a psiquiatra e psicoterapeuta Renata Covre, da Hapvida, que também atua como fotógrafa, explica quando registrar momentos deixa de ser uma escolha e pode se transformar em uma tentativa de controlar a incerteza.
A relação cotidiana com as imagens
Se você abrisse agora a galeria do seu celular, provavelmente encontraria muito mais do que fotos de viagens, aniversários e pessoas queridas. Há registros de documentos, telas, produtos que pretende comprar, informações do que não quer esquecer e, claro, centenas de momentos que talvez nunca mais sejam revisitados.
Por que fotografamos
Fotografar tudo se tornou tão natural que raramente paramos para pensar por que fazemos isso. Será que é apenas para lembrar ou para aliviar o medo de esquecer? Segundo Renata, mais importante do que contar quantas fotografias uma pessoa realiza é entender qual função o registro desempenha em sua vida.
A foto vira alívio
“Fotografar, por si só, não é um problema. Hoje a câmera do celular também funciona como uma espécie de memória auxiliar. O que começa a chamar atenção é quando deixa de ser uma escolha e vira quase uma necessidade”, explica a médica.
Uma pessoa pode fazer dezenas ou até centenas de fotografias sem que isso represente qualquer problema, especialmente quando a fotografia faz parte de seu trabalho ou de um hobby. O sinal de atenção aparece quando deixar de registrar provoca desconforto, insegurança ou a sensação de que algo ruim pode acontecer.
Fotografar para lembrar
Existe uma contradição: na tentativa de garantir que uma experiência seja lembrada no futuro, podemos prestar menos atenção ao que está acontecendo no presente. Imagine alguém em um show que passa boa parte da apresentação escolhendo enquadramentos, gravando vídeos e conferindo se as imagens ficaram boas. Parte da atenção está concentrada na produção do registro e não na experiência em si.
“Para formar uma memória, primeiro a gente precisa estar minimamente presente e prestar atenção naquela experiência.” Às vezes, a preocupação em garantir uma boa lembrança para o futuro diminui drasticamente a atenção ao presente.
Fotografar para focar
Para Renata, fotografar também pode ampliar a capacidade de observação do mundo. Fotografar pode ser uma maneira muito bonita de prestar atenção e ver detalhes. Quando você gosta de fotografia, começa a notar luzes, expressões e cenas que poderiam passar despercebidas. A diferença está na liberdade de escolha: “Eu posso olhar uma cena e pensar ‘isso eu quero fotografar’, mas também consigo pensar ‘essa eu quero só viver'”.
Milhares de fotos poucas lembranças
Nunca foi tão fácil fotografar, mas muitas imagens acumuladas nunca sequer serão revistas. Podemos acabar acumulando registros sem transformá-los em lembranças significativas. Uma alternativa é tornar a relação com as fotografias mais intencional:
- Selecionar algumas imagens
- Organizar álbuns
- Imprimir fotografias
- Rever imagens com outras pessoas
Essas práticas ajudam a transformar arquivos digitais em pistas para reconstruir histórias. Além disso, existem memórias que não são essencialmente visuais: conversas, cheiros, músicas e sensações também fazem parte da lembrança.
Quando é hora de pedir ajuda
Fotografar muito não significa, por si só, ter um transtorno. O alerta surge na combinação entre sofrimento, prejuízo na rotina e perda de liberdade de escolha. Pode ser sinal de que é hora de procurar ajuda quando a pessoa percebe que:
- Fica muito angustiada ao não conseguir registrar algo
- Perde tempo excessivo fotografando, organizando ou checando imagens
- O comportamento gera conflitos, atrasos ou prejuízo nas relações
- Sente necessidade de repetir os comportamentos para aliviar ansiedade
Renata chama atenção para um ciclo comum: surge uma dúvida, a pessoa registra para se sentir segura, experimenta alívio e depois precisa repetir o comportamento. Ter ferramentas para diminuir pequenas incertezas nem sempre reduz a ansiedade; às vezes isso treina a tolerância a ser cada vez menor. O objetivo é buscar equilíbrio e recuperar a liberdade de escolher entre registrar e simplesmente viver.