O mês de abril traz uma data que convida à reflexão sobre a sociedade que vivemos e a que desejamos construir. Em 02 de abril, celebra-se o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, cujo objetivo é informar, combater estigmas e ampliar a visibilidade sobre essa existência neurodivergente. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) envolve alterações no neurodesenvolvimento humano e demanda estimulações, terapias e adaptações ao longo da vida para garantir autonomia, dignidade e plena participação social.
Nas últimas duas décadas, a incidência de casos de TEA tem aumentado no Brasil, ao mesmo tempo em que se observa a consolidação de políticas de inclusão que asseguram melhor acesso aos direitos fundamentais à Educação, Saúde e assistência social. Esse movimento também se reflete na presença cada vez maior de estudantes autistas nas instituições de ensino, inclusive no Ensino Superior. A sociedade brasileira tem ampliado, ainda que gradualmente, os espaços de inserção e permanência de pessoas neurodivergentes, consolidando avanços importantes no campo da acessibilidade e da inclusão — uma tendência reforçada pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015).
No Ensino Superior, a busca pela formação acadêmica segue sendo um desejo para grande parte da população, e isso não é diferente para pessoas autistas. No ano seguinte à promulgação da Lei Brasileira de Inclusão, o Brasil registrou 30 mil estudantes com deficiência matriculados em Instituições de Ensino Superior, segundo dados do Censo INEP de 2016. Já o Censo do Ensino Superior de 2023 mostrou que, entre os 10 milhões de universitários brasileiros, cerca de 93 mil pertencem ao grupo de pessoas com deficiência e/ou necessidades educacionais especiais.
O censo mais recente do IBGE (2022) indica que o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com autismo, número calculado conforme a Lei 13.861/2019, que determinou a inclusão desse dado nas pesquisas demográficas. Também foi registrado que 14,4 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, representando 7,3% da população com dois anos ou mais. A região Nordeste apresenta índices acima da média nacional, o que evidencia ainda mais a urgência de políticas e práticas inclusivas que assegurem o acesso dessas pessoas ao Ensino Superior, direito garantido desde a Constituição de 1988.
Em todo o país, diversas Instituições de Ensino Superior têm acumulado experiências exitosas ao adotar adaptações pedagógicas, arquitetônicas, uso de tecnologia assistiva e flexibilizações nas avaliações. Mas ainda há muito a ser construído. O grande diferencial está na chamada inclusão atitudinal, que vai além de recursos e metodologias: trata-se de reconhecer, na prática, que a universidade é lugar para pessoas autistas.
Normalizar a presença de estudantes autistas em sala de aula, nos estágios, nos grupos de pesquisa, nos trabalhos em equipe e nos eventos acadêmicos é fundamental. Isso exige romper com olhares de surpresa, infantilização, piedade ou estigmatização. A convivência cotidiana com pessoas neurodivergentes deveria ser vista como algo comum, porque é comum.
Mesmo diante de avanços, os desafios ainda são significativos. Apenas 7,4% das pessoas com deficiência concluem o Ensino Superior, contra 19% da população não deficiente, segundo o Censo de 2022. Para estudantes autistas, esses obstáculos envolvem desde dificuldades sensoriais e barreiras comunicacionais até a falta de preparo institucional e de compreensão da comunidade acadêmica.
Ainda assim, o acesso à formação universitária amplia oportunidades de trabalho, fortalece vínculos sociais e afetivos, e contribui para a construção de uma vida mais autônoma e digna. Além disso, a presença de estudantes autistas enriquece a formação dos colegas e fortalece o compromisso coletivo com uma sociedade verdadeiramente inclusiva.
Que, num futuro próximo, esse panorama continue avançando para que estudantes autistas possam ocupar cada vez mais espaços acadêmicos com acessibilidade, autonomia, acolhimento e pleno exercício de seus direitos.
Poliana Moraes, psicóloga e docente do Centro Universitário da Wyden