Por décadas, o autismo em mulheres esteve oculto sob diagnósticos imprecisos, estereótipos de comportamento e expectativas sociais rígidas. Meninas que falavam bem, tiravam boas notas e demonstravam empatia muitas vezes eram consideradas “boas demais” para estar no espectro, um mito que ainda mantém milhares de mulheres invisíveis diante da própria história.
Camuflagem social e invisibilidade
A camuflagem social, ou masking, é uma das principais razões dessa invisibilidade. Desde cedo, muitas meninas aprendem a observar e imitar comportamentos para se “encaixar”, mesmo que isso custe enorme esforço cognitivo e emocional. “As mulheres autistas se tornam excelentes observadoras. Elas estudam expressões, ensaiam respostas, tentam mapear códigos sociais que não são naturais para elas. Essa inteligência social adquirida impressiona por fora, mas desgasta profundamente por dentro”, explica a psiquiatra Isla Queiroz, pediatra com atuação em neurodesenvolvimento.
Dupla excepcionalidade e atraso no diagnóstico
O fenômeno se torna mais complexo com a chamada dupla excepcionalidade (2e), que combina altas habilidades cognitivas com dificuldades típicas do autismo. Meninas rotuladas como “muito inteligentes”, “maduras” ou “responsáveis” podem esconder sinais de sofrimento sensorial e emocional. O perfil 2e frequentemente leva a um diagnóstico tardio, muitas vezes só após os 25, 30 ou até 40 anos.
Impactos emocionais e diagnósticos confundidos
A camuflagem constante cobra um alto preço. Manter uma performance social gera sobrecarga sensorial e mental, podendo evoluir para burnout autista, ansiedade intensa e depressão recorrente. Esses quadros são frequentemente tratados como transtornos isolados por anos, sem que a raiz autista seja identificada.
- Burnout autista
- Ansiedade e depressão
- Transtornos alimentares com origem em hipersensibilidade sensorial
- Comorbidade com TDAH, presente em até 70% dos casos, segundo estudos citados
“É muito comum que mulheres autistas passem anos tratando ansiedade, depressão ou transtornos alimentares sem melhora consistente. Isso acontece porque a raiz do problema, a sobrecarga gerada pelo autismo não identificado, permanece invisível”, afirma Queiroz. Especialistas também destacam diferenças clínicas importantes para o diagnóstico diferencial, como a distinção entre ansiedade social e dificuldades na leitura das interações sociais no autismo, ou entre oscilações emocionais no transtorno de personalidade borderline e a sobrecarga sensorial no espectro autista.
O diagnóstico tardio e a descoberta de si
Enquanto meninos costumam ser diagnosticados ainda na infância, meninas e mulheres seguem outro caminho. Muitas só procuram atendimento após tentativas frustradas de tratamento ou quando, adultas, reconhecem um estado constante de exaustão. Para muitas, descobrir-se autista é encontrar um sentido para a própria história: nomear o cansaço social, entender crises sensoriais e perceber que não eram “exageradas” ou “difíceis”.
O diagnóstico, portanto, costuma trazer alívio e reencontro com a identidade após anos de autocrítica. Pesquisas reforçam que o autismo feminino tem um fenótipo mais sutil e adaptativo, que passou despercebido porque critérios diagnósticos foram formulados a partir de estudos majoritariamente masculinos. Reconhecer o autismo feminino é reconhecer diversidade neurológica e favorecer abordagens neuroafirmativas em vez de patologizantes.
Sobre o IAN
Inaugurado em 2025 no RioMar Trade Center, em Recife, o IAN é um espaço pioneiro no Brasil dedicado ao acolhimento e cuidado de adolescentes e jovens adultos neurodivergentes de Nível 1 de suporte, além de pessoas LGBTQIAPN+. Fundado pela psicóloga e neurocientista Geórgia Menezes e pela pediatra e psiquiatra Isla Queiroz, o instituto integra clínica, pesquisa, educação e apoio à funcionalidade em uma abordagem transdisciplinar e centrada na pessoa.
Com equipe qualificada e composta também por profissionais neurodivergentes, o IAN oferece atendimento clínico integrado com práticas neuroafirmativas, formação profissional, apoio familiar e estímulo à autonomia, promovendo ciência, cuidado e cidadania. Mais informações em www.institutoian.com.br e no Instagram @ianinstituto.