O LIDE Energia Pernambuco, o presidente Eduardo Azevedo, ao lado de Drayton Nejaim, presidente do LIDE Pernambuco, receberam, em seu Almoço Empresarial, o Diretor de Operação do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Christiano Vieira, para uma análise técnica sobre os desafios da operação do Sistema Interligado Nacional (SIN) no horizonte de 2026.
A apresentação destacou que o Brasil vive um momento singular: crescimento expressivo da geração renovável, ao mesmo tempo em que aumentam as exigências operacionais para manter a segurança do suprimento. Segundo dados apresentados, o SIN registrou recentemente recorde de atendimento com 93,4% da carga suprida por fontes renováveis. Paralelamente, a extensão das linhas de transmissão acima de 230 kV deve crescer de 174,7 mil km em 2024 para 183,5 mil km até 2029.
Apesar dos avanços, o desafio central não é a falta de energia, mas a integração eficiente de uma matriz cada vez mais variável. A participação de fontes como eólica, solar e micro e minigeração distribuída (MMGD) tende a ampliar sua relevância, reduzindo o peso relativo da geração hidráulica — tradicional fonte de flexibilidade do sistema.
Flexibilidade como ponto crítico
A operação do SIN é orientada por uma equação básica: garantir segurança do suprimento ao menor custo possível. Nesse contexto, a flexibilidade operativa torna-se elemento-chave.
Dados apresentados indicam que, em 2026, aproximadamente 75% da matriz terá algum grau de inflexibilidade estrutural, seja por características térmicas, hidráulicas ou pela própria natureza intermitente das fontes renováveis. A carga líquida efetivamente flexível representará cerca de 25%.
Hoje, a principal fonte de flexibilidade ainda é a geração hidráulica. No entanto, condicionantes operativos — como restrições de nível de reservatórios, vazões mínimas e exigências socioambientais — vêm reduzindo a margem de manobra operacional.
Curtailment e expansão da transmissão
Outro ponto central foi o crescimento do chamado “curtailment”, que consiste na redução de geração como recurso necessário para garantir a segurança do sistema. O fenômeno ocorre tanto por restrições elétricas (limitações da rede de transmissão) quanto energéticas (excesso de oferta frente à demanda).
O ONS vem adotando medidas para mitigar esses impactos, incluindo: Ampliação da capacidade de transmissão no Nordeste; Instalação de compensadores síncronos para suporte dinâmico; Discussões regulatórias com a ANEEL sobre critérios de rateio de cortes; Publicação de relatórios técnicos com horizonte até 2029; Participação ativa no Grupo de Trabalho de Curtailment coordenado pelo Ministério de Minas e Energia.
Mudanças climáticas e resiliência
Eventos extremos também foram apontados como fator estrutural de risco. Secas prolongadas reduzem a disponibilidade hídrica; ondas de calor elevam a demanda e alteram o perfil de carga; enchentes e tempestades impactam a disponibilidade de ativos de transmissão. Nesse cenário, a resiliência operacional deixa de ser diferencial e passa a ser pré-requisito para a estabilidade do sistema.
Caminhos estruturantes
Entre as iniciativas estratégicas destacadas estão: Melhoria na aquisição e análise de dados para maior previsibilidade da geração variável; Associação entre geração renovável e armazenamento; Avaliação regulatória da prestação de serviços ancilares por fontes renováveis e MMGD; Sinalização adequada de preços para incentivar o deslocamento da demanda para horários de excedente; Análise cautelosa de cargas intensivas, como data centers e plantas de hidrogênio, associadas à geração variável.
O debate reforçou que o desafio da próxima década não está na expansão da oferta, mas na coordenação técnica, regulatória e estrutural de um sistema cada vez mais renovável, complexo e exposto a variáveis climáticas. O encontro integrou a agenda estratégica do LIDE Energia Pernambuco de promover diálogo qualificado entre setor produtivo e lideranças institucionais sobre temas estruturantes para a competitividade e o desenvolvimento regional.