Do feed para a cama – psicóloga explica como a busca pelo corpo ideal pode afetar a intimidade

por: André Vita

O corpo está no quarto em um momento de intimidade, mas a mente parece distante e em frente a um espelho. Em vez de se entregar às sensações, a pessoa começa a se comparar com um modelo de beleza que aprendeu como desejável e que foi reforçado pelas redes sociais. Barriga, estrias, peso, cicatrizes, tudo passa a incomodar e a provocar um ‘desaparecimento’ emocional durante o sexo.

Percepção do corpo e intimidade

“A percepção que uma pessoa tem de si mesma interfere diretamente na maneira como ela se relaciona com o próximo, inclusive na intimidade. O como eu me vejo influencia em como os outros irão me ver. E quebrar esse padrão de enxergar a si mesma de forma negativa faz todo o sentido quando o assunto é voltar a ter uma vida sexual saudável” explica a psicóloga e psicoterapeuta Roberta Ribeiro Pinto, da Hapvida.

Influência das redes sociais

A exposição frequente a imagens de corpos considerados perfeitos, relações aparentemente impecáveis e performances idealizadas cria referências que funcionam como uma régua na avaliação do próprio corpo. “O nosso cérebro é muito visual, aprende e tem muito mais facilidade de desempenhar conforme ele enxerga”, afirma Roberta. O resultado é que a pessoa pode se preocupar mais com a aparência do que com o prazer, evitar posições, manter o corpo coberto, deixar de experimentar e até evitar relações.

Aparência e performance

Além da aparência, a visualização constante de conteúdos que mostram desempenho sexual idealizado pode gerar expectativas irreais sobre como a relação deveria ocorrer. Segundo Roberta, esse impacto costuma ser mais percebido entre homens, que podem comparar sua performance a padrões difíceis de reproduzir. A consequência muitas vezes é a busca por soluções imediatas para corresponder à expectativa criada, com riscos de uso inadequado de medicamentos para melhorar o desempenho.

Mudanças naturais

Mudanças do ciclo de vida também alteram a imagem corporal e a sensação de desejabilidade. Entre os exemplos estão:

  • gravidez e pós-parto
  • menopausa e andropausa
  • envelhecimento
  • variações de peso

Para quem construiu uma referência rígida do próprio corpo, reconhecer essas mudanças pode ser desafiador. Roberta defende que ter referências positivas e espaço para falar sobre inseguranças faz diferença, porque o autoconhecimento também passa pela capacidade de reconhecer que o corpo não é estático.

O elogio ajuda

A reconstrução da relação entre corpo e mente não precisa ser apenas individual. O parceiro ou a parceira pode criar um ambiente de segurança, afeto e comunicação. Elogios sinceros, compartilhar o que agrada e o que incomoda, e falar sobre inseguranças ajudam a tirar a intimidade do campo da performance e trazê‑la de volta ao campo da conexão. “Isso tem a ver com autoconhecimento e faz toda a diferença, porque a saúde sexual está conectada com a saúde mental”, complementa a especialista.

Sentir-se desejável

Desejar cuidar da aparência ou mudar algo no corpo não é problema por si só. A questão é o significado por trás dessa vontade: é uma escolha pessoal ou a sensação de que é preciso atingir um padrão para ser desejado? Romper com essa lógica exige autoconhecimento e a aceitação das transformações do corpo ao longo da vida. “O segredo está em reconhecer as mudanças sem deixar que elas determinem o valor ou a capacidade de viver a própria sexualidade. O objetivo maior de tudo isso é estar presente, seja para si ou seja para o outro”, conclui Roberta.

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