Estilista transforma vestido de noiva em manifesto contra o capacitismo após dois anos de ataques nas redes

por: André Vita

Um vestido de noiva deixou de ser apenas peça de celebração para se tornar um registro das palavras ofensivas que a estilista Juliana Santos recebeu durante mais de dois anos nas redes sociais.

O vestido como manifesto

Juliana Santos, mulher com deficiência física, mãe e criadora de conteúdo com mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, reproduziu no tecido comentários que afirma ter documentado ao longo do período de ataques virtuais. A saia branca foi preenchida com frases retiradas desses comentários, muitas das quais fazem referência direta à sua deficiência, ao seu corpo e à sua vida pessoal.

“Jogaram terra em mim e flores nasceram. Mas as palavras continuam tentando fazê-las morrer”, resume Juliana ao explicar o conceito da obra. No centro da saia, entre os comentários, aparece a palavra INVISÍVEL, escolhida para provocar a contradição entre ser exposta e, ao mesmo tempo, ignorada.

Ataques que chegaram à carreira

Os ataques não ficaram restritos ao ambiente virtual e, segundo a estilista, afetaram diretamente sua atividade profissional. Juliana trabalha há 12 anos no mercado de casamentos e já produziu mais de 2.300 vestidos.

  • 2024: 678 vestidos produzidos
  • 2025: 68 vestidos produzidos
  • 2026: 28 contratos fechados até o momento

Ela também relata uma sequência de cancelamentos e estima cerca de R$ 220 mil em valores a serem ressarcidos a clientes. Apesar da redução da demanda, Juliana afirma que continuou trabalhando e entregando projetos.

“Eu não quero ser vista apenas como uma vítima. Quero que o meu caso sirva para mostrar que capacitismo não é piada, não é meme e não é simplesmente opinião”, diz a estilista, ressaltando o impacto humano e profissional da violência digital.

O vestido como registro

A parte superior do vestido recebeu uma intervenção artística com flores que começam a perder vida à medida que se aproximam das frases escritas no tecido. O branco da peça vai sendo ocupado pelas palavras enquanto as flores pintadas representam a tentativa de preservar a criação diante da violência.

Para Juliana, a obra é também uma recusa em permitir que sua deficiência defina toda a sua identidade. “Minha deficiência faz parte de quem eu sou, mas ela não é tudo o que eu sou. Antes de enxergarem a minha deficiência, existe uma profissional, uma artista, uma mulher, uma mãe e uma pessoa que construiu uma carreira”.

Da experiência pessoal para uma discussão maior

Juliana afirma que há um inquérito relacionado às denúncias que apresentou e que aguarda o avanço das investigações. Ela usa a própria experiência para discutir temas como violência digital, capacitismo, exposição pública, carreira e protagonismo de pessoas com deficiência.

“Eu não quero ser lembrada apenas como uma mulher com deficiência que suportou tudo isso. Quero ser uma mulher com deficiência que foi ouvida. Quero continuar trabalhando e quero que o que aconteceu comigo sirva para discutir o que acontece quando o capacitismo se transforma em violência reiterada”, afirma a estilista.

Sobre Juliana Santos

Juliana Santos é estilista e artista autoral especializada em vestidos de noiva. Com 12 anos de atuação no mercado de casamentos, já produziu mais de 2.300 vestidos e combina moda, arte, cores, conforto e expressão individual em seu trabalho. Nas redes sociais, reúne mais de 3 milhões de seguidores e utiliza sua visibilidade para discutir inclusão, autonomia e protagonismo de pessoas com deficiência. Veja seu perfil no Instagram.

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André Vita

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