A política pernambucana ainda funciona, em grande medida, como um espaço de exclusão. Não por falta de mulheres preparadas, mas por estruturas que, historicamente, dificultam — e muitas vezes impedem — a sua chegada e permanência nos espaços de poder.
É verdade que avançamos. A eleição de Raquel Lyra quebrou um ciclo histórico e colocou, pela primeira vez, uma mulher no comando do estado. Mas é preciso dizer com todas as letras: um fato histórico não pode ser usado para maquiar uma realidade que ainda é profundamente desigual.
Na Assembleia Legislativa de Pernambuco, a presença feminina segue sendo exceção, não regra. São poucas deputadas para representar milhões de mulheres pernambucanas. Isso não é coincidência. É resultado de um sistema político que concentra poder, recursos e oportunidades nas mãos de poucos — e, em sua maioria, homens.
E essa desigualdade cobra um preço alto. Quando mulheres não estão nos espaços de decisão, temas urgentes são tratados como secundários. A violência contra a mulher, a sobrecarga do trabalho doméstico, a desigualdade no mercado de trabalho — tudo isso perde prioridade em um ambiente que não reflete a realidade da população.
Mas o problema não é só ausência. É também o tipo de resistência que mulheres enfrentam quando ousam ocupar esses espaços. Violência política de gênero, deslegitimação, ataques pessoais — práticas que tentam, todos os dias, empurrar mulheres de volta para fora da política.
É preciso romper com isso. E romper exige mais do que discursos bonitos. Exige ação concreta: distribuição justa de recursos de campanha, fortalecimento de candidaturas femininas, enfrentamento sério à violência política e compromisso real dos partidos com a igualdade. Não se trata de favor. Não se trata de concessão. Trata-se de justiça e de democracia.
Pernambuco não pode se contentar com avanços simbólicos. A eleição de uma governadora foi um marco — mas não resolve o problema. Precisamos garantir que mais mulheres estejam na Assembleia Legislativa de Pernambuco, nas prefeituras, nas câmaras municipais e em todos os espaços onde decisões são tomadas.
Porque democracia de verdade não combina com exclusão. E enquanto a política não tiver a cara do povo — inclusive a cara das mulheres — ela continuará incompleta.
Debora Almeida – Deputada estadual pelo PSD e duas vezes prefeita de São Bento do Una