Recentemente, a celulite facial ganhou espaço na grande mídia, gerando tanto curiosidade quanto apreensão em grande parte do público. Afinal, do que se trata essa condição e ela guarda alguma semelhança com a celulite estética tradicional?
Em primeiro lugar, convém ressaltar que, apesar da coincidência na nomenclatura popular, tratam-se de patologias totalmente distintas.
A celulite estética, conhecida pelo aspecto semelhante à casca de laranja que atinge sobretudo coxas e glúteos, também é chamada de fibroedeme geloide (FEG) ou lipodistrofia ginoide. Trata-se de uma modificação estrutural no tecido adiposo e nas fibras de sustentação cutânea, gerando as irregularidades típicas, sem qualquer natureza infecciosa.
Em contrapartida, a celulite facial constitui uma infecção bacteriana que atinge tanto as camadas profundas cutâneas quanto o tecido subcutâneo da face. Esse quadro surge quando patógenos penetram por microlesões na pele ou quando um foco infeccioso adjacente se espalha para a face.
Dentre os fatores causais mais recorrentes, encontram-se traumas físicos, espinhas espremidas, focos dentários infecciosos, cortes superficiais e, em contextos específicos, intercorrências infecciosas decorrentes de intervenções invasivas.
Os sintomas fundamentais abrangem eritema, edema, algia, hipertermia local e hipersensibilidade ao toque. Conforme o grau da infecção, o paciente também pode manifestar pirexia, calafrios e indisposição geral.
Um aspecto que exige atenção redobrada é que a celulite facial ultrapassa a esfera puramente estética. Trata-se de um quadro infeccioso que, se negligenciado no diagnóstico e na terapêutica, pode progredir e atingir estruturas faciais relevantes.
Em cenários mais graves, a infecção pode alcançar a área periorbitária, originar abscessos e desencadear repercussões sistêmicas, a exemplo da sepse, que representa uma reação severa do organismo à infecção.
Por essa razão, manifestações como expansão rápida do edema, febre, dor severa, distúrbios visuais ou dificuldades respiratórias e de deglutição demandam assistência médica imediata.
No que tange ao manejo terapêutico, é imprescindível esclarecer que este depende de rigorosa avaliação clínica, considerando a etiologia e a severidade do quadro.
Via de regra, o tratamento baseia-se na administração de antibióticos receitados por profissional de saúde habilitado . Determinadas situações permitem o manejo domiciliar com supervisão profissional, enquanto casos severos exigem hospitalização para medicação intravenosa e monitoramento contínuo. Caso haja origem odontológica, a intervenção do cirurgião-dentista torna-se indispensável.
Ao abordarmos a prevenção, torna-se imprescindível enfatizar a relevância dos hábitos de higiene intraorais e extraorais.Os cuidados intraorais englobam a higienização bucal correta, o acompanhamento odontológico periódico e a intervenção precoce em focos infecciosos dentários e gengivais, que funcionam como potenciais vias de propagação bacteriana para a face.
Por sua vez, os cuidados extraorais relacionam-se à limpeza cutânea, ao manejo adequado de ferimentos e, sobretudo, à abstenção de manipular lesões na pele.
A acne vulgar, comumente chamada de espinha, ilustra bem esse cenário. É frequente o hábito de espremer tais lesões, desconsiderando que tal prática gera pequenas feridas, rompe a barreira cutânea protetora e facilita a entrada de bactérias, elevando a probabilidade de infecções, inclusive a celulite facial.
Consequentemente, desaconselha-se espremer espinhas ou tentar extrações caseiras. Caso tais procedimentos sejam necessários, devem ser executados por profissionais capacitados, em conformidade com as normas de biossecurança e os limites profissionais pertinentes.
A principal mensagem a ser transmitida é que a informação atua como instrumento preventivo. Nem toda alteração facial restringe-se à estética, assim como nenhum edema deve ser desconsiderado.
A celulite facial dispõe de tratamento e, quando diagnosticada precocemente, costuma evoluir de maneira favorável. O preceito fundamental consiste em evitar a automedicação e procedimentos empíricos, recorrendo a uma avaliação médica logo aos primeiros indícios suspeitos.
Zelar pela saúde implica igualmente compreender quando o organismo emite alertas de que algo não vai bem.
Vanessa Lapa – Professora de Fisioterapia, Estética e Cosmética do Centro Universitário UniFBV Wyden
