Bloomberg Línea — O Brasil deixou de depender da pasta de tomate importada da Califórnia para produzir o ketchup Heinz vendido no país a partir de 2025, quando todo o tomate usado no produto passou a ser cultivado no Brasil, segundo Ariel Grunkraut, CEO da Kraft Heinz no país.
Autossuficiência e planos regionais
“2025 foi o primeiro ano da nossa história aqui no Brasil em que 100% do tomate Heinz foi produzido aqui no Brasil”, disse Grunkraut em entrevista. Até então, a operação ainda complementava o abastecimento com tomate ou pasta importada para atender ao padrão de cor, sabor e consistência da marca. Hoje a autossuficiência atende o mercado doméstico e a empresa estuda, em até quatro anos, expandir esse fornecimento para o mercado latino-americano.
Estrutura produtiva e contratos
A operação brasileira concentra sua base industrial em Goiás, nos arredores das fábricas de Nerópolis e Nova Goiás, e trabalha com cerca de 20 produtores rurais parceiros, mantendo aproximadamente 7 mil hectares sob contrato. Desse total, 2.500 hectares são destinados ao tomate.
O modelo agrícola da Heinz
A estratégia para alcançar a autossuficiência foi construída com uma combinação de contratos, assistência técnica e fornecimento de insumos. A companhia seleciona sementes de tomate industrial desenvolvidas pela unidade de melhoramento genético da empresa e testa novas variedades em parceria com os agricultores.
O pacote oferecido aos produtores inclui:
- Seleção de híbridos conforme solo, altitude, clima e pragas
- Fornecimento de insumos como fertilizantes
- Irrigação inteligente e agricultura de precisão
- Ferramentas digitais e assistência técnica contínua
Em contrapartida, a Kraft Heinz compra a produção gerada com os híbridos fornecidos pelo programa, garantindo a compra integral da safra desses produtores.
Tecnologia e ganhos de produtividade
Toda a área produtiva contratada é irrigada, o que contribui para rendimentos até 25% acima da média nacional. Além disso, o uso de tecnologias como inteligência artificial, drones e monitoramento de lavouras tem ampliado a produtividade. Segundo a empresa, uma ferramenta de machine learning desenvolvida no Brasil pode gerar ganho adicional de 8% na produtividade, redução de 12% no consumo de água e corte de 10% no uso de energia elétrica.
Dados oficiais apontam que a produtividade média nacional de tomate foi de 74 toneladas por hectare na última safra, segundo o IBGE, e o Brasil colheu 4,7 milhões de toneladas em 2025, o maior volume já registrado.
Logística de colheita e processamento
A concentração da produção em Goiás responde à necessidade de reduzir o tempo entre colheita e fábrica: durante a safra, os tomates precisam chegar à fábrica em até seis horas, e o processamento é feito em até 24 horas após a colheita. A pasta resultante é estocada para garantir fornecimento ao longo do ano.
Crescimento, aquisições e investimentos
A operação brasileira da companhia dobrou de tamanho entre 2020 e 2025, impulsionada pela expansão da marca e por aquisições como Hemmer e BR Spices. A empresa afirma ter investido cerca de R$ 1 bilhão no Brasil nos últimos cinco anos, com foco em lavoura, modernização fabril, pessoal e aquisições estratégicas. A meta é dobrar novamente até 2030 sem novas aquisições.
Impacto para o mercado
A maior disponibilidade de matéria-prima local viabilizou lançamentos como o extrato de tomate Heinz e o ketchup Heinz Zero, além de reforçar a capacidade da empresa de atender aumentos de demanda sem expandir necessariamente a área plantada, graças às tecnologias e ao aumento de produtividade.