Uma criança pode ter a visão ameaçada sem dor, sem olhos vermelhos e sem reclamar que enxerga mal. Isso ocorre em casos de uveíte associada à artrite idiopática juvenil (AIJ), uma doença reumática crônica que afeta crianças e adolescentes e que pode comprometer os olhos de forma silenciosa.
Artrite idiopática juvenil e uveíte
A artrite idiopática juvenil é a doença reumática crônica mais frequente na infância. Embora conhecida pelos sintomas articulares — dor, inchaço e rigidez — a AIJ também pode desencadear uveíte, inflamação da úvea, camada do olho essencial para a visão. O Ministério da Saúde inclui o acompanhamento oftalmológico no Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) para esses pacientes.
Importância do rastreamento oftalmológico
Segundo o Dr. Clóvis Freitas, oftalmologista especialista em uveítes e doenças inflamatórias oculares, um dos maiores desafios é que a inflamação ocular costuma evoluir sem sintomas nas fases iniciais. “Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a criança pode apresentar uveíte sem dor, sem vermelhidão e sem perceber qualquer alteração na visão. Quando os sintomas aparecem, a doença pode já ter provocado danos importantes. Por isso, o rastreamento oftalmológico periódico é indispensável para crianças com artrite idiopática juvenil”, afirma o médico.
A Sociedade Brasileira de Pediatria aponta que a AIJ é uma das principais causas de uveíte não infecciosa na infância. Em subtipos como a forma oligoarticular, a inflamação ocular pode permanecer assintomática, elevando o risco de diagnóstico tardio. Grupos de maior risco incluem crianças que desenvolveram AIJ antes dos seis anos, meninas e pacientes com fator antinuclear (FAN) positivo.
Complicações e prevenção
Sem acompanhamento adequado, a uveíte pode causar catarata, glaucoma, alterações na retina e perda permanente da visão. Por isso, diretrizes brasileiras e internacionais recomendam avaliações oftalmológicas periódicas mesmo na ausência de queixas visuais. O trabalho integrado entre pediatra, reumatologista pediátrico e oftalmologista é essencial para reduzir risco de sequelas.
Sinais de alerta
- dor, inchaço ou rigidez persistente nas articulações
- dificuldade para caminhar ou brincar
- sensibilidade excessiva à luz
- olhos vermelhos persistentes
- alterações visuais
Mesmo sem esses sinais, o risco de uveíte não é eliminado, por isso o acompanhamento oftalmológico periódico é parte essencial do tratamento de crianças com AIJ.
Sobre o Dr. Clóvis Freitas
O oftalmologista Clóvis Freitas é autor de livros sobre uveítes e possui fellowship em imunologia ocular na MERSI, instituição de pesquisa e cirurgia ocular de Massachusetts. Pernambucano, representa no Brasil a Ocular Immunology and Uveitis Foundation (OIUF), uma das entidades fundadoras do World Uveitis Day, celebrado pela primeira vez em 10 de abril de 2026. Com os médicos Theophilo Freitas e Luiz Guilherme Freitas, fundou a VIW Oftalmologia, clínica especializada em catarata, uveítes e doenças da retina inaugurada em abril de 2026 no bairro de Casa Forte, Recife.