Quanto guardar para o dinheiro não acabar na aposentadoria?

por: André Vita

Por Thaísa Durso, especialista em Finanças Pessoais da Rico

Por que planejar a aposentadoria

Os brasileiros estão vivendo mais e planejar a aposentadoria deixou de significar apenas juntar uma grande quantia. O desafio é transformar o patrimônio acumulado em uma renda capaz de sustentar o padrão de vida por 25, 30 anos ou até mais depois da saída do mercado de trabalho.

Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro (Anbima/Datafolha, 2025), 60% dos brasileiros que ainda não se aposentaram esperam viver da previdência pública, e só 16% dizem já guardar dinheiro especificamente para a aposentadoria. Entre os que já se aposentaram, 93% dependem do INSS. Ou seja, a maioria aposta em uma fonte de renda que, sozinha, dificilmente mantém o padrão de vida da fase ativa.

Planejar como uma conta de fluxo de caixa

Em vez de tentar adivinhar quanto patrimônio será suficiente, trate a aposentadoria como uma conta de fluxo de caixa guiada por três perguntas: quanto será necessário por mês, quanto já estará coberto por outras receitas e por quanto tempo os investimentos vão precisar cobrir essa diferença. Antes de escolher produtos financeiros, é preciso entender objetivos, patrimônio, despesas, riscos e prioridades da família.

Passo 1 — descobrir quanto faltará por mês

O primeiro número não é o patrimônio. É a renda mensal desejada. Para chegar a ela, estime quanto custará o padrão de vida na aposentadoria e subtraia as receitas já previstas, como o benefício do INSS, aluguel de imóveis, pensões ou outras fontes recorrentes.

Imagine uma pessoa que deseje contar com R$ 5.000 por mês e estime receber R$ 2.000 do INSS. Nesse caso, haverá uma diferença de R$ 3.000 mensais. É essa parcela que os investimentos precisarão complementar.

Considere que algumas despesas tendem a diminuir, como deslocamento para o trabalho, e outras tendem a aumentar, especialmente saúde, medicamentos, seguros, adaptações na moradia e cuidados de longo prazo. Dívidas, proteção e objetivos da família fazem parte da mesma equação.

Passo 2 — fazer a conta com o retorno real líquido

Calcule o retorno real líquido, ou seja, o que sobra depois da inflação, da tributação e dos custos dos produtos financeiros. A Selic alta pode impressionar, mas parte do retorno serve apenas para repor a inflação e outra parte pode ser consumida por impostos e taxas. Planeje com premissas conservadoras e lembre que projeção não é promessa: retornos futuros são estimativas e geralmente envolvem risco.

Passo 3 — decidir quanto do patrimônio poderá ser consumido

Há duas formas principais de usar o dinheiro acumulado:

  • Retirar apenas os rendimentos e preservar o capital acumulado, opção para quem quer deixar herança ou manter reservas para emergências.
  • Consumir parte do capital ao longo do tempo, planejando o dinheiro para sustentar a renda durante um período específico.

Preservar integralmente o patrimônio exige mais recursos do que planejar o consumo gradual. Muitas famílias optam por um meio-termo: preservar uma parte para sucessão e destinar outra parte para gerar renda.

Para simulações de quanto patrimônio pode ser necessário para gerar rendas de R$ 3.000, R$ 5.000 e R$ 10.000 por mês, confira a nossa análise aqui.

Passo 4 — planejar-se para uma vida mais longa

Viver mais é uma conquista que precisa entrar no planejamento. Muitas pessoas podem aproveitar três décadas ou mais de aposentadoria, então vale considerar períodos mais longos do que o cenário médio.

O plano deve estar preparado para oscilações do mercado, especialmente no início da aposentadoria. Estratégias que combinam diversificação, reservas de liquidez e revisões periódicas ajudam a evitar vendas em momentos desfavoráveis e preservam o patrimônio por mais tempo. Adotar uma margem de segurança aumenta a chance de manter autonomia financeira ao longo de toda a aposentadoria.

Passo 5 — dar uma função para cada parte do dinheiro

Organize liquidez, proteção, crescimento, tributação e sucessão. Separe o dinheiro em “gavetas”: reserva de emergência, investimentos atrelados à inflação para proteger o poder de compra, e ativos para crescimento e diversificação.

Alguns produtos foram pensados para essa fase, como o Tesouro RendA+ que ajuda a formar renda mensal corrigida pela inflação por 20 anos, e a previdência privada, que pode oferecer vantagens tributárias e sucessórias. Também existe a portabilidade entre planos, que permite ajustar a estratégia sem resgatar recursos e sem antecipar imposto.

Para entender melhor previdência privada, diferenças entre PGBL e VGBL e como usar esse produto no planejamento de longo prazo, disponibilizamos gratuitamente um e-book sobre o tema.

A aposentadoria é um processo

A aposentadoria passa por fases de acumulação, transição e utilização dos recursos. O valor calculado hoje não é definitivo: renda, despesas, saúde, estrutura familiar, legislação e condições de mercado mudam, e o plano precisa acompanhar essas transformações.

Teste o plano em cenários menos favoráveis: viver mais do que o esperado, obter retornos menores, enfrentar despesas médicas maiores ou precisar interromper a carreira antes do previsto.

Longevidade também é assunto de família

Quando a aposentadoria é mal planejada, o impacto pode chegar a filhos, netos e a toda a organização financeira da família. Quando o planejamento funciona, a pessoa idosa preserva autonomia, mantém liberdade de escolha e pode contribuir para o futuro das próximas gerações, seja por apoio financeiro, planejamento sucessório ou transmissão de bons hábitos.

No fim, viver mais é uma conquista. O desafio é fazer com que as finanças acompanhem essa conquista durante todo o caminho, construindo uma estratégia que permita viver a longevidade com autonomia, tranquilidade e liberdade de escolha.

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André Vita

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