As enchentes que atingem regularmente cidades brasileiras expõem uma realidade de vulnerabilidade urbana que não é consequência apenas de questões de infraestrutura. As relações entre pessoas e território também são capazes de potencializar mudanças e melhorar a qualidade de vida das comunidades. Por isso, tratar a mobilização social como mera divulgação de atividades ou cumprimento de exigências participativas pode comprometer a efetividade das intervenções urbanas.
A construção de cidades mais resilientes passa necessariamente pela capacidade de envolver moradores como agentes permanentes da transformação local, reconhecendo seu conhecimento sobre o território, suas redes de convivência e sua capacidade de mobilização. O Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNDRR) reforça essa perspectiva ao destacar que a redução do risco de desastres exige a participação ativa e contínua das comunidades.
A mobilização, portanto, não deve ser uma ação complementar ou pontual, mas uma estratégia estruturante, capaz de ampliar a compreensão dos desafios locais, fortalecer a corresponsabilidade e criar condições para que as soluções tenham continuidade após o encerramento dos projetos.
Em A Ladder of Citizen Participation, publicado em 1969, a pesquisadora Sherry Arnstein argumentou que a participação só é efetiva quando cidadãos exercem influência real sobre decisões que afetam suas vidas. Mais de meio século depois, a reflexão permanece atual. Reuniões, oficinas e audiências podem registrar presença sem necessariamente ampliar a capacidade das comunidades de compreender problemas, influenciar prioridades ou sustentar soluções no longo prazo. Quando a participação se resume a eventos isolados, cria-se uma aparência de envolvimento sem alterar a relação da população com as decisões sobre o território.
Esse problema também está relacionado à falsa separação entre mobilização social e produção de conhecimento. Em territórios vulneráveis, moradores frequentemente já criam redes de apoio, identificam pontos críticos, alertam sobre riscos e desenvolvem estratégias para enfrentar problemas que impactam seu cotidiano. O papel da mobilização não é transferir para a população responsabilidades que cabem ao poder público, mas fortalecer o conhecimento, a articulação e a capacidade de participação das comunidades na construção das soluções.
É o que se observa em desafios que conectam sustentabilidade, conservação ambiental e qualidade de vida e podem ser enfrentados por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). O Jardim Filtrante do Recife, primeiro projeto-piloto dessa natureza implantado em um parque público do Nordeste, demonstra como a mobilização pode ganhar profundidade quando intervenções técnicas são acompanhadas de processos que ajudam a população a compreender os fatores que produzem os problemas cotidianos.
Nesse contexto, o cuidado com rios, áreas verdes e SBN (Soluções Baseadas na Natureza) deixa de ser uma pauta ambiental abstrata e passa a ser percebido como uma questão diretamente relacionada à saúde, à segurança, à qualidade de vida e à resiliência dos territórios.
Essa mudança, porém, não acontece de forma pontual ou episódica. Ela depende de presença territorial contínua, escuta, convivência e reconhecimento das lideranças locais. Afinal, projetos se encerram, mas as comunidades permanecem. A confiança necessária para construir corresponsabilidade leva tempo para ser formada. Não por acaso, a ONU-Habitat identifica a participação comunitária como um fator importante para fortalecer a coesão social e aumentar a legitimidade das políticas urbanas.
Há quem argumente que processos permanentes de mobilização elevam custos e tornam projetos mais lentos. O problema é que o insucesso de uma intervenção urbana raramente aparece no momento da entrega. Ele pode surgir anos depois, quando equipamentos deixam de ser utilizados, áreas recuperadas voltam a ser degradadas ou estruturas perdem efetividade por falta de apropriação da comunidade. Segundo a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), políticas públicas que incorporam participação consistente tendem a alcançar maior confiança institucional e melhores resultados na implementação.
O investimento em mobilização, portanto, não concorre com os recursos destinados às obras: ele ajuda a proteger esses investimentos, aumentando suas chances de permanência e impacto. Projetos urbanos comprometidos com mudanças duradouras precisam abandonar a lógica da participação como etapa e adotá-la como infraestrutura. Se infraestruturas físicas organizam fluxos de água, mobilidade e serviços, as infraestruturas sociais organizam vínculos, conhecimento, pertencimento e capacidade de ação coletiva.
Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais intensos e pressões urbanas crescentes, o verdadeiro legado dos projetos não estará apenas na qualidade técnica das soluções implementadas, mas também na capacidade de formar comunidades mais informadas, conectadas e preparadas para continuar transformando seus territórios. A resiliência das cidades depende, afinal, tanto de estruturas capazes de resistir aos impactos quanto de comunidades fortalecidas, com vínculos e senso de pertencimento, capazes de reconhecer os desafios e participar ativamente da construção das soluções.
Giselle Cahú é analista de comunicação da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)