Mobilização social é infraestrutura para cidades mais resilientes

por: André Vita

Giselle Cahú é analista de comunicação da Agência Recife para Inovação e Estratégia (ARIES)

As enchentes que atingem regularmente cidades brasileiras expõem uma realidade de vulnerabilidade urbana que não é consequência apenas de questões de infraestrutura. As relações entre pessoas e território também são capazes de potencializar mudanças e melhorar a qualidade de vida das comunidades. Por isso, tratar a mobilização social como mera divulgação de atividades ou cumprimento de exigências participativas pode comprometer a efetividade das intervenções urbanas.

Mobilização como elemento central da resiliência

A construção de cidades mais resilientes passa necessariamente pela capacidade de envolver moradores como agentes permanentes da transformação local, reconhecendo seu conhecimento sobre o território, suas redes de convivência e sua capacidade de mobilização. O Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNDRR) reforça que a redução do risco de desastres exige a participação ativa e contínua das comunidades.

Participação permanente e corresponsabilidade

A mobilização, portanto, não deve ser uma ação complementar ou pontual, mas uma estratégia estruturante, capaz de ampliar a compreensão dos desafios locais, fortalecer a corresponsabilidade e criar condições para que as soluções tenham continuidade após o encerramento dos projetos.

Influência real nas decisões

Em A Ladder of Citizen Participation, publicado em 1969, a pesquisadora Sherry Arnstein argumentou que a participação só é efetiva quando cidadãos exercem influência real sobre decisões que afetam suas vidas. Reuniões, oficinas e audiências podem registrar presença sem necessariamente ampliar a capacidade das comunidades de compreender problemas, influenciar prioridades ou sustentar soluções no longo prazo.

Conexão entre mobilização e produção de conhecimento

Esse problema também está relacionado à falsa separação entre mobilização social e produção de conhecimento. Em territórios vulneráveis, moradores frequentemente já criam redes de apoio, identificam pontos críticos, alertam sobre riscos e desenvolvem estratégias para enfrentar problemas que impactam seu cotidiano. O papel da mobilização não é transferir para a população responsabilidades que cabem ao poder público, mas fortalecer o conhecimento, a articulação e a capacidade de participação das comunidades na construção das soluções.

Exemplo prático e Soluções Baseadas na Natureza

É o que se observa em desafios que conectam sustentabilidade, conservação ambiental e qualidade de vida e podem ser enfrentados por meio de Soluções Baseadas na Natureza (SBN). Projetos como o Jardim Filtrante do Recife, primeiro projeto-piloto dessa natureza implantado em um parque público do Nordeste, demonstram como intervenções técnicas ganham profundidade quando acompanhadas de processos que ajudam a população a compreender os fatores que produzem os problemas cotidianos. Para referência sobre SBN veja também IUCN Soluções Baseadas na Natureza.

Saúde, segurança e qualidade de vida

Nesse contexto, o cuidado com rios, áreas verdes e SBN deixa de ser uma pauta ambiental abstrata e passa a ser percebido como uma questão diretamente relacionada à saúde, à segurança, à qualidade de vida e à resiliência dos territórios.

Presença territorial e construção de confiança

Essa mudança não acontece de forma pontual ou episódica. Ela depende de presença territorial contínua, escuta, convivência e reconhecimento das lideranças locais. Afinal, projetos se encerram, mas as comunidades permanecem. A confiança necessária para construir corresponsabilidade leva tempo para ser formada. Não por acaso, o ONU Habitat identifica a participação comunitária como fator importante para fortalecer a coesão social e aumentar a legitimidade das políticas urbanas.

Custos e benefícios da mobilização contínua

Há quem argumente que processos permanentes de mobilização elevam custos e tornam projetos mais lentos. O problema é que o insucesso de uma intervenção urbana raramente aparece no momento da entrega. Ele pode surgir anos depois, quando equipamentos deixam de ser utilizados, áreas recuperadas voltam a ser degradadas ou estruturas perdem efetividade por falta de apropriação da comunidade. Segundo a OCDE, políticas públicas que incorporam participação consistente tendem a alcançar maior confiança institucional e melhores resultados na implementação.

Infraestrutura social para proteger investimentos

O investimento em mobilização não concorre com os recursos destinados às obras: ele ajuda a proteger esses investimentos, aumentando suas chances de permanência e impacto. Projetos urbanos comprometidos com mudanças duradouras precisam abandonar a lógica da participação como etapa e adotá-la como infraestrutura. Se infraestruturas físicas organizam fluxos de água, mobilidade e serviços, as infraestruturas sociais organizam vínculos, conhecimento, pertencimento e capacidade de ação coletiva.

  • Vínculos entre moradores e espaços
  • Conhecimento sobre riscos e soluções locais
  • Pertencimento que promove apropriação e cuidado
  • Ação coletiva sustentada ao longo do tempo

Legado além da técnica

Em um cenário de eventos climáticos cada vez mais intensos e pressões urbanas crescentes, o verdadeiro legado dos projetos não estará apenas na qualidade técnica das soluções implementadas, mas também na capacidade de formar comunidades mais informadas, conectadas e preparadas para continuar transformando seus territórios. A resiliência das cidades depende tanto de estruturas capazes de resistir aos impactos quanto de comunidades fortalecidas, com vínculos e senso de pertencimento, capazes de reconhecer desafios e participar ativamente da construção das soluções.

author avatar
André Vita

Posts Relacionados

Deixe um comentário